Com um faturamento superior a um bilhão de reais por ano no Brasil e um mercado muitas vezes maior no exterior, o mundo do conteúdo adulto se profissionaliza, explode de vez, impulsionado pela demanda dos consumidores usuários de internet – e busca o status de empreendimento sério e respeitável.
“A delícia do brasileiro é conversar safadeza” – Darcy Ribeiro
O antropólogo e autor de O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro sabia que a turma da terra brasilis não apenas gosta de falar sobre safadeza, mas também curte ver, fazer, gravar, assistir e, se vacilar, colocar tudo na internet. Os anos 2000, graças à rede mundial de computadores, viram o boom da pornografia – ou conteúdo adulto, como a própria indústria gosta de se definir, em busca de respeitabilidade e distanciamento da imagem “suja” que a sociedade sempre aplicou a ela.
O interesse por sexo é antigo desde que o mundo é mundo (revistas existem há mais de 60 anos e os filmes explícitos há mais de 30), mas, com a chegada da web, ele se tornou exponencial. Um levantamento feito em 2000 já mostrava que a palavra sex era a mais procurada em sites de busca e o termo pornography/pornô, o quarto termo mais solicitado. No mesmo ano, outra pesquisa mostrou que 60% das buscas efetuadas na internet tinham natureza sexual.
Para se ter uma idéia do crescimento da indústria do rala-e-rola (ops, conteúdo adulto), já em 2006, o faturamento de toda a indústria do sexo (incluindo vídeos, internet, revistas, TV a cabo, conteúdo para telefone celular) somou 13,3 bilhões de dólares nos Estados Unidos, mais que o faturamento das ligas de basquete, beisebol e futebol americano juntas. No Brasil, embora os cálculos sejam mais modestos, eles contabilizam cerca de 800 milhões de dólares anuais, ou 1,4 bilhão de reais.
O que ajudou a impulsionar este setor nos últimos anos não está apenas na beleza dos corpos apresentados ou na excitação que eles proporcionam, mas, principalmente, o negócio hoje está na variedade de mídias onde o conteúdo adulto é veiculado. “Por meio de pesquisas temos acompanhado as mudanças do comportamento de nossos consumidores, que está cada vez mais conectado. Quem gosta de conteúdo adulto, busca na internet, celular, TV e locadora”, observa o gerente geral da Playboy do Brasil, Mauricio Paletta. E tem mais, “o público de conteúdo adulto prefere conteúdo visual (fotos e vídeos) a textos”, informa Paletta.
O crescimento deste negócio ajuda a desmistificar um pouco da aura que o cercava. Afinal, lidar com produtos que despertam o desejo sexual sempre foi complicado do ponto-de-vista do impacto que a publicidade sobre conteúdo adulto exerce sobre a sexualidade. Depois de décadas sendo considerado algo maldito, inclusive no Brasil, um produto para mentes perversas (lembrar a clássica Sala Especial nos anos 70 e 80 na TV aberta, cujos filmes pareceriam infantis frente aos atuais hardcore), o conteúdo adulto passou a ganhar mais consumidores fora das fileiras dos broncos, tarados, fetichistas, machistas e tímidos empedernidos.
Nos anos 90, com a chegada da TV a cabo e da popularização da internet comercial, cristalizou-se a opinião de que o conteúdo adulto nesses canais era um feudo dos homens das classes A e B, que davam vazão às suas fantasias na frente da telinha do computador ou da TV. A internet teve um papel importante nesse território, no sentido da mudança de comportamento e acesso a material pornográfico e, no Brasil, já há uma constatação: conteúdo adulto não é exclusivamente território do Clube do Bolinha.
De Vera Fischer a Mônica Mattos, o cinema erótico brasileiro mudou radicalmente, mas se constituiu num filão comercial de grande sucesso, principalmente nos anos 70, quando atrizes de renome – que hoje renegam este passado – se jogaram nos braços de mocinhos ávidos em filmes meio eróticos, meio comédias e lotaram os cinemas brazucas.
Se nas telas daqueles cinemas inferninhos do centro e mesmo no DVD de casa a tela é quentíssima, as emoções da alta voltagem erótica brasileira surgiram na década de 70, com o nome mais que popular de pornochanchada, uma alusão aos filmes da década de 50, com muito humor, mas algo mais – nudez e cenas de sexo, no início softcore.
Surgida nos anos 70, em São Paulo, na chamada Boca do Lixo (local da região central de São Paulo, conhecida pelo número de boates e prostituição), a pornochanchada aliava duas coisas que o brasileiro adora – humor e sacanagem, não necessariamente nessa ordem.
Assim, diretores como Cláudio Cunha, Alfredo Sternheim, Fauzi Mansur e outros conseguiram fazer muita bilheteria. A razão era simples: aliar elementos dos filmes do gênero conhecido como chanchada ao erotismo que, em época de ditadura, se restringia ao mais leve – nudez e sexo simulado. Aos poucos, os filmes tornaram-se mais ousados nas cenas de sexo, paralelamente à decadência do regime militar e ao enfraquecimento da censura, até o seu fim, em 1984, quando o gênero entrou em decadência, com a ascensão de um eletrodoméstico muito popular, o videocassete.
A pornochanchada revelou atores e atrizes que depois ficaram famosos na TV, como Lucélia Santos, Sonia Braga, Nadia Lippi, Antonio Fagundes, Reginaldo Farias, Matilde Mastrangi e a ex- miss Brasil Vera Fischer. Depois de se firmar como atores, os ex-participantes das pornochanchadas passaram a esconder de seus currículos a presença nos filmes do gênero.
No início dos anos 80, ainda havia canais de TV aberta que exibiam os filmes adultos brasileiros em horários tarde da noite, as assim chamadas sessões eróticas. Destacam-se entre eles os programas “Sala Especial”, na TV Record, no começo dos anos 80, e “Cine Brasil”, na CNT, entre 1997 e 1998.
É das décadas de 70 e 80 a produção e veiculação de filmes com títulos sutis, como “Superfêmea” (1973), com Vera Fischer, “Cada Um Dá o Que Tem” (1975), “Bem Dotado, o Homem de Itu” (1977), com Nuno Leal Maia e Aldine Müller, “Será Que Ela Aguenta?” (1977). À medida que o cinema erótico começava a perder a corrida para as videolocadoras e a área de filmes pornôs importados, as ousadias começaram a ficar maiores, assim como os títulos, cada vez mais bizarros: “Senta no Meu que eu Entro na Tua” (1985), “Minha Cabrita, Minha Tara” (1986) ou “O Beijo da Mulher Piranha” (1986). O que dizer, então, da fábula “A Galinha do Rabo de Ouro” (1987)?
Se os filmes da década de 70 aliavam uma nudez estimulante mas algo discreta, com o relaxamento da censura do regime militar abriu-se a porta para produções mais próximas da pornografia. Assim, “Coisas Eróticas”, o primeiro filme brasileiro a ter cenas de sexo explícito, ganhou as telas em 1981, e inaugurou o cinema nacional no segmento hardcore.
Ao mesmo tempo que a década de 80 entrou com tudo, com o perdão do trocadilho, no cinema pornográfico, a pornochanchada iniciou sua lenta decadência. Motivos não faltaram: o fim da obrigatoriedade das cotas de exibição de fitas nacionais, o surgimento do videocassete e a exibição de filmes de sexo explícito nos cinemas. Ou, nas palavras de um personagem do escritor Luis Fernando Verissimo, quando “começaram a fazer na tela o que fazíamos na plateia”.
Com o fim das pornochanchadas acabou também a fama e o estrelato de alguns atores e atrizes que não conseguiram mudar de estilo ou ir para a TV. Alguns conseguiram pequenos trabalhos na televisão e no teatro, como Sandra Brea, Matilde Mastrangi, David Cardoso (este um superstar das pornochanchadas), Nicole Puzzi e Aldine Muller, enquanto outros simplesmente desapareceram.
O final da década de 80 e toda a década de 90 foram da consolidação do pornô brasileiro, seja em VHS ou ainda nos cinemas, ainda que por menos tempo que se imaginava: com o advento do DVD, quase no final da década de 90, não fazia mais tanto sentido ir ao cinema pornô, uma vez que os títulos estavam todos disponíveis em locadoras e até em bancas de jornal.
Surgiram as produtoras de vídeo nacionais, como Brasileirinhas, Explícita, Introduction e Sexxxy, voltadas a fornecer conteúdo local, um movimento que a própria Playboy do Brasil percebeu, quando entrou no mundo da TV por assinatura. “O público de conteúdo adulto gosta de se identificar na tela. Muitas vezes ele não quer apenas mulheres loiras, com seios enormes, que parecem estrangeiras. Existe sim uma grande demanda por produções nacionais, o desejo de ver na tela mulheres com o biotipo brasileiro, que lembrem uma vizinha, uma amiga”, observa o gerente geral da Playboy, Mauricio Paletta.
Assim, começaram a surgir as primeiras estrelas de filmes nacionais, como Vivian Mello, Ju Pantera, mas o mercado realmente esquentou com a chegada de ex-celebridades. Mulheres como a ex-chacrete Rita Cadillac, ou a ex-mallandrinha Vivi Fernandez, ou a ex-musa de Fausto Fawcett, Regininha Poltergeist. Nesse universo cheio de ex-alguma coisa, uma garota morena, de aparência doce e angelical, se tornou a mais nova estrela pornô. E reconhecida internacionalmente. Mônica Mattos, atualmente a mais conhecida e requisitada atriz pornô do Brasil, recebeu o troféu AVN 2008 na categoria melhor performance estrangeira feminina do ano. Ela foi a primeira latino-americana a receber o troféu, considerado a premiação máxima do universo do cinema adulto.
Por José Augusto Padilha








