MUITA HISTÓRIA PARA CONTAR
O premiado jornalista e escritor Laurentino Gomes lança o aguardado 1822, continuação do best seller 1808
Laurentino Gomes atua há trinta anos como jornalista, repórter e editor para diversos veículos de comunicação do Brasil, mas seu trabalho de maior reconhecimento é sem dúvida o livro 1808. Lançado também em versão juvenil com aquarelas da artista plástica gaúcha Rita Brugger, 1808 foi um tremendo sucesso editorial tanto no Brasil quanto em Portugal. O livro, fruto de dez anos de pesquisa jornalística, conta a verdadeira história que cerca a saída às pressas da família real para o Rio de Janeiro, um importante fato histórico acontecido em uma das etapas mais cativantes e revolucionárias do Brasil, de Portugal e do mundo.

Em entrevista exclusiva à Blow Up, Laurentino fala sobre suas pretensões com o lançamento de 1822, a esperada continuação de 1808; explica seu processo criativo e de pesquisa e traça paralelos entre o Brasil construído há dois séculos e o Brasil atual.
BlowUp: Como surgiu o interesse de pesquisar e transformar em livro esses períodos da história (1808 e agora 1822)?
Laurentino Gomes: Procuro aplicar a experiência adquiridas como jornalista em mais de trinta anos como repórter e editor de jornais e revistas. É preciso ler muito, consultar documentos, confrontar diferentes fontes de informação na tentativa de chegar o mais próximo possível da verdade. Uso a linguagem e a técnica jornalísticas para tornar a história um tema acessível e atraente para um público mais amplo, não habituado ao estilo árido e, às vezes, incompreensível dos livros acadêmicos. Procuro demonstrar nos meus livros que a História pode ser fascinante, divertida e interessante, mas sem ser banal.
BlowUp: Quais os principais desafios durante a redação de 1822?
Laurentino Gomes: Infelizmente, a história do Brasil é muito repleta de mitos e fantasias. O grande desafio é tentar decifrar os acontecimentos e personagens reais por trás desses mitos. Uma fantasia é o quadro do Grito do Ipiranga. Trata-se de uma idealização da cena real, já do final do século XIX, encomendada por D Pedro II como forma de celebrar os feitos da monarquia brasileira. Na pintura, apresentada ao público em 1888, ou seja 66 anos após o Grito do Ipiranga, Pedro Américo mostra um príncipe impecavelmente vestido, montado sobre um alazão e saudado pelos dragões da Independência. Nada disso é verdade. D. Pedro montava um animal de carga, provavelmente uma mula, estava vestido como um tropeiro e os dragões da Independência ainda não existiam. A guarda de honra era formada por fazendeiros, cavaleiros e pessoas comuns das cidades do Vale do Paraíba, por onde o príncipe passara alguns dias antes a caminho de São Paulo. Além disso, uma testemunha do Grito (o coronel Marcondes, futuro Barão de Pindamonhangada) registrou em suas memórias que D. Pedro estava com dor de barriga devido a algum alimento estragado que havia comido no litoral paulista. A cena real é bucólica e prosaica, mais brasileira e menos épica. E, ainda assim, importantíssima. Ela marca o início da história do Brasil como nação independente.
BlowUp: Como você avalia os reflexos das várias descontruções e construções do
país em 1822 para a formação do perfil atual do Brasil?
Laurentino Gomes: Em 1822, a própria existência do Brasil na sua forma atual era improvável. A perspectiva mais provável era que o novo país mergulhasse numa guerra civil e se fragmentasse em duas ou três nações independentes, como aconteceu com a América Espanhola. Os riscos do processo de ruptura com Portugal eram tantos que a elite brasileira se congregou em torno do imperador Pedro I como forma de evitar o caos de uma guerra civil ou étnica, entre escravos e brancos, que, em alguns momentos, parecia inevitável. Conseguiu, dessa forma, preservar os seus interesses e viabilizar um projeto único de país no continente americano. Cercado de repúblicas por todos os lados, o Brasil se manteve como monarquia por mais de meio século. Como resultado, o país foi edificado de cima para baixo. Coube à pequena elite imperial, bem preparada em Coimbra e outros centros europeus de formação, conduzir o processo de construção nacional, de modo a evitar que a ampliação da participação para o restante da sociedade resultasse em caos e rupturas traumáticas. Essa construção autoritária, de cima para baixo, continuou na República, em uma sucessão de ditadores, generais e caudilho. Só recentemente, após o fim do regime militar de 1964, o Brasil começou de fato o exercício da democracia. Isso explica muito do que se vê em Brasília hoje.
BlowUp: “1822″ chegou às livrarias em outubro, período de eleições. Como
jornalista, como você avalia essa convergência?
Laurentino Gomes: É uma convergência altamente benéfica porque uma sociedade que não estuda o passado tem dificuldades em planejar o futuro do país. A grande novidade no Brasil de hoje é o exercício continuado da democracia. Durante quase cinco séculos os brasileiros, como um todo, nunca foram chamados a participar da construção nacional. Essa tarefa cabia sempre a um rei, um imperador, um general ou um ditador. Marcada por uma herança de escravidão, analfabetismo e concentração de riqueza e propriedade, a imensa maioria da população foi mantida à margem, como mera expectadora desse processo de construção nacional. Como resultado, hoje nós temos um certo problema de auto-estima. O brasileiro reluta em se identificar com seu próprio país e se reconhecer como brasileiro. Há uma certa estranheza entre estado e sociedade. A boa notícia é que hoje o Brasil sonhado pelos brasileiros é melhor do que o país real. O brasileiro sonha com um Brasil menos corrupto, menos violentos, menos desigual e mais eficiente. O que significa que o país do futuro – produto dessa nova experiência que a participação de todos na construção nacional – será provavelmente melhor do que o atual. Mas a construção desse novo Brasil envolve um longo e difícil aprendizado da democracia. Não existe outra forma de construir um país senão pela participação de todos.
BlowUp: Após o período que será dedicado ao lançamento de “1822”, você já tem novos projetos?
Laurentino Gomes: Meu próximo livro, que pretendo publicar dentro de três anos, vai se chamar “1889”. Será sobre o Segundo Reinado e da Proclamação da República. Dessa maneira, fecho uma trilogia numérica com três datas fundamentais para entender a construção do Estado brasileiro no século XIX. Depois disso, prometo não fazer mais livros com números na capa. Existem, ao claro, outros projetos à vista, mas ainda é cedo para falar sobre eles. Prefiro me concentrar em uma pesquisa de cada vez.
BlowUp: Pessoalmente, qual descoberta ou análise sua mais o surpreendeu durante a pesquisa do novo livro?
Laurentino Gomes: Na história oficial aprende-se que a ruptura do Brasil com Portugal foi pacífica, fruto de uma negociação dentro da família real de Bragança, entre o pai D. João XI e o filho D. Pedro. Isso não é verdade. O processo foi violento, com uma guerra no Norte e no Nordeste e na Província Cisplatina, atual Uruguai, que se prolongou até quase o final de 1823. Muita gente morreu lutando pela Independência brasileira. Um exemplo é a Batalha do Jenipapo, no Piauí. Foi travada no dia 13 de março de 1823 na localidade de Campo Maior, a 80 quilômetros de Teresina (que naquela época ainda não existia) entre cerca de 2 000 brasileiros e 1 600 soldados portugueses. E foi um massacre. Morreram entre 300 e 400 brasileiros, contra apenas oito vítimas do lado português. Fiquei impressionado com esse lugar. Ele é a prova de que a Independência do Brasil não se resume ao Grito do Ipiranga.








